É verdade que as pessoas no Brasil são infinitamente mais amigáveis do que na França. Quero dizer, os desconhecidos na rua mesmo. Quase todos são simpáticos, bem-humorados, fazem piadas e são altamente eficientes para dar informações. Teve um comerciante de barraquinha que largou o posto e foi me levar até o prédio do centro da cidade que eu estava procurando. As relações informais do dia-a-dia com pessoas que não conhecemos são muito calorosas. Por outro lado, quando um indivíduo tem poder sobre o outro, ele se torna insuportável. Seja numa relação de negócios, um aluguel de apartamento, quem tem mais poder vai jogar com isso até o fim. Ele vai querer tirar todo o proveito da situação, se você concordar com vinte, ele vai pedir trinta e não vai ficar satisfeito até ter certeza de que foi o "esperto" da história. Porque o pior que pode acontecer a um brasileiro é ser passado pra trás.
Na França as relações humanas podem não ser tão calorosas, mas pelo menos é tudo muito mais claro. Se o salário combinado pelo telefone foi aquele, não existe a possibilidade do contrato chegar com outro valor. O dono do imóvel não vai se achar mais importante do que o comprador. Nos órgãos administrativos, não importa a quantos funcionários a pergunta for feita - a resposta sempre será a mesma.
Mas entre amigos, acho que os brasileiros são mais fáceis, porque de maneira geral são mais espontâneos. Lembro uma vez que fomos na casa de uns brasileiros em Paris e o cheri achou o máximo quando um cara apoiou o pé na cadeira e o dono da casa pediu pra ele não colocar o pé ali porque ia estragar o assento. Depois ele ficou refletindo: é tão simples, né? Se fossem franceses o dono da casa não diria nada, mas olharia meio torto pra ele. Daí o cara ia saber que tinha algo errado, mas não saberia o que. Ficaria um clima meio chato, o cara se sentiria desconfortável pensando se o dono da casa estava irritado com ele e especulando as razões e todo mundo ficaria levemente constrangido. À toa.
Claro que não são todos os franceses. Eu tomei conta de filhos de uma francesa que sempre foi bem direta. Mas mesmo assim não era uma espontaneidade como a dos brasileiros, era algo perto de uma grosseria. Eu nunca levei a mal porque prefiro pessoas verdadeiras do que às que mentem pra agradar. Eu sempre levava suco de maracujá pros filhos dela, eles adoravam. Daí um dia levei também goiabada, achando que ia arrasar. Quando perguntei pra ela se eles tinham gostado ela disse a verdade: não. Outra vez eu comprei havaianas pra eles. Ela disse morrendo de rir que o garoto não tinha se adaptado (pra você ver como faz calor em Paris) e que durante a viagem ele deu um jeito de sumir com os chinelos, "acho que ele jogou no mar". Gente, tem como não amar tanta sinceridade? Porque não era um negócio de poxa, que pena, ele perdeu os chinelos. Era - ele não gostou e jogou fora.
Pior de tudo foi da última vez que ela me escreveu: "Amanda, estou vendo que você está perdendo a prática do francês". Errr, obrigada. O mais engraçado é que apesar da gente já ter ido ao cinema juntas, termos tomado uma cerveja juntas, continuamos a nos tratar de "vous". Acho o fim da picada, mas depois de tanto tempo, vai ficar assim pra sempre.

Não sei qual dos dois países eu prefiro mais a relação entre as pessoas. Se por um lado eu gosto do contato informal com desconhecidos daqui, acho que se acontecesse a mesma coisa na França eu não saberia como agir porque provavelmente me perderia nas piadas. Mas também acho que tanta comunicação é exagerada. Ser simpático ou brincar com alguém na hora de vender alguma coisa tudo bem, mas ter que conversar com todos os desconhecidos que puxam assunto é muito chato. Outro dia fomos no banco e estávamos discutindo se valeria à pena ou não esperar tanto tempo para sermos atendidos. Daí ouvi alguém falando no meu outro ouvido e quando virei tinha uma mulher conversando comigo, interrompendo minha conversa com o cheri. O monólogo foi surreal.
- ...tá vendo só, aquele atendente tá espirrando e vai ser ele quem vai me atender e eu sempre pego gripe de todo mundo e vou pegar a gripe dele. Ai meu deus que coisa. Teve um dia que minha vizinha me ligou. Minha vizinha é muito boazinha, sabe. Muito velhinha. Então ela me ligou chamando pra ir ver ela, mas eu sabia que ela tava gripada e ficava evitando. Ela ligava e eu não ia. Aí semana passada eu liguei pra ela pra ver se ela já tava boa, porque sabe, eu pego gripe de todo mundo que tá com gripe e minha vizinha tava com gripe. Ai eu liguei e minha nossa, descobri que ela tinha morrido. Ela morreu e eu fiquei muito culpada de não ter ido visitá-la. Aí agora vou ter que ser atendida por esse rapaz que tá espirrando.
- Talvez você seja atendida pelo outro ali do lado e...
- O Roberto? Não, o Roberto já vai sair pra almoçar. E aquela lourinha ali do outro lado, como é o nome dela, esqueci, deusmilivre, ela é muito atrapalhada, vou ter que ir com o moço doente mesmo e blablabla ad infinitum.
Se eu estava com alguma dúvida se iria esperar ou não ser atendida, não tinha mais. Deixei a mulher falando sozinha e me mandei dali. E isso sempre acontece, é ou não é? Uma vez uma doida na janela me chamou e começou a falar comigo sobre a vizinhança dela. Eu fiquei ali de pé parada olhando pra cima sem saber o que fazer. E ela falando, falando, falando. Mudava de assunto sozinha não sei como e falava das coisas mais variadas possíveis. E eu fiquei lá pensando se ela era doida de verdade ou não, segurando o riso.
Acho que na verdade depende mais de como você acordou no dia. Tem dias que tô como uma nevasca em Paris, não quero ouvir nem bom dia. Mas tem dias de sol que quero muito socializar até com o cachorro do vizinho. Infelizmente não dá pra escolher acordar no Rio ou em Paris de acordo com meu humor. Não seria ótimo?