Voltar de vez é muito diferente de visitar. Quando viemos ao Brasil a passeio sabemos que é por pouco tempo, então tratamos de nos apressar e ir riscando logo os itens da extensa listinha que fazemos empolgados antes de viajar, com medo de esquecermos algum pequeno prazer que, imaginem só a tragédia - teria que ser adiado até o ano seguinte. Comemos tudo o que temos vontade, visitamos todos os parentes, vamos aos nossos lugares favoritos. Organizamos uma festinha com amigos na tentativa de reunir a galera como antigamente, mas sempre ficamos decepcionados de não conseguir ver todo mundo (e invarialmente achar que alguns deles não fizeram muito esforço para nos ver). Vamos segunda na praia, terça no centro da cidade, quarta na casa da melhor amiga, quinta no shopping, sexta no dentista. Cada dia é precioso e não podemos desperdiçá-lo.
Curtimos muito conversar com desconhecidos na rua. O diálogo parece tão fácil! Ninguém franze as sombrancelhas tentando nos decifrar enquanto argumentamos. É bom ouvir nossa língua sendo falada universalmente, nos sentimos em casa. Coisas que normalmente nos indignariam passam despercebidas como "exentricidades culturais", ah brasileiros, seus lindos! Porque estamos ali só pra tirar o melhor e voltar pro nosso novo lar, com nossas novas regras e novos hábitos. Algumas coisas podem sim nos entristecer, mas não é uma preocupação constante.
Mas tudo muda quando voltamos de vez. Primeiro que não temos muita pressa, já que teremos todo o tempo do mundo pra ver amigos e família, comer tudo que queremos, comprar o necessário. O tédio encontra seu lugar. Já não tem mais listinha. A listinha, já amassada no fundo da bolsa, dessa vez foi ao contrário: coisas pra fazer antes de deixar seu país de adoção. Ainda é bom ouvir nossa língua na rua, mas conversando, começamos a perceber que faltam equivalentes de palavras em português, que só existem na nova segunda língua. Passamos a nos preocupar em ter que conviver com todos os defeitos graves que observamos no cotidiano e não nos conformamos com problemas simples de urbanização que nunca foram solucionados. Ouvimos o primeiro comentário machista/homofóbico/preconceituoso, estranhamos. Ouvimos o segundo, o terceiro, o décimo, o centésimo. De pessoas queridas.
Percebemos que nossos barezinhos preferidos continuam lá, mas que agora já não têm a menor graça. Encontramos os amigos, que dependendo da amizade, ou parece que vimos ontem, ou parece que vimos há milênios. Estranhamos como pode tudo estar tão diferente e tão igual ao mesmo tempo. Tentamos não iniciar frases com "Lá na França (ou qualquer outro país), era assim ou assado", para não parecermos arrogantes.
Ninguém parece entender como era nossa vida do lado de lá e a maior parte das pessoas não está interessada em saber. Alguns acham que já fomos longe, já tivemos nossa crisinha de rebeldia e que agora era a hora de encarar a realidade, que a vida é assim e ninguém pode fugir disso. Querem que retomemos nossas vidas do ponto que paramos quando fomos embora, sem levar em consideração toda a experiência que tivemos nesse tempo. Quando muito, dizem que o aprendizado de uma língua estrangeira "foi bom para o currículo".
Temos novas preocupações de achar um lugar pra morar, um novo emprego, novos bens e todo o pacote burocrático que acompanha. Se tiver um amor estrangeiro na história, então, prepare-se para o pior. Passamos a ter o sonho constante de poder juntar as melhores coisas de cada lugar num único país, mas sabemos muito bem que assim não teria graça. E vamos organizando nossa nova (ou velha) vida aos poucos, sempre olhando pros lados, tentando adaptar nosso aprendizado de lá com as ferramentas que temos disponíveis aqui.
Com o tempo, alguns de nós se readaptam completamente e sentem-se de volta em casa. A experiência fora valeu a pena, mas acabou. Outros descobrem com tristeza que seu lugar não é mais aqui, que seu modo de vida não combina mais com o estilo que tinha antes. A esses, eu espero que tenham coragem suficiente de partir novamente, mesmo que todos ao redor achem que devam ficar. Todo mundo têm o direito de achar seu lugar no mundo. Ou de passar o resto da vida procurando, o que não é nada mal.
Curtimos muito conversar com desconhecidos na rua. O diálogo parece tão fácil! Ninguém franze as sombrancelhas tentando nos decifrar enquanto argumentamos. É bom ouvir nossa língua sendo falada universalmente, nos sentimos em casa. Coisas que normalmente nos indignariam passam despercebidas como "exentricidades culturais", ah brasileiros, seus lindos! Porque estamos ali só pra tirar o melhor e voltar pro nosso novo lar, com nossas novas regras e novos hábitos. Algumas coisas podem sim nos entristecer, mas não é uma preocupação constante.
Mas tudo muda quando voltamos de vez. Primeiro que não temos muita pressa, já que teremos todo o tempo do mundo pra ver amigos e família, comer tudo que queremos, comprar o necessário. O tédio encontra seu lugar. Já não tem mais listinha. A listinha, já amassada no fundo da bolsa, dessa vez foi ao contrário: coisas pra fazer antes de deixar seu país de adoção. Ainda é bom ouvir nossa língua na rua, mas conversando, começamos a perceber que faltam equivalentes de palavras em português, que só existem na nova segunda língua. Passamos a nos preocupar em ter que conviver com todos os defeitos graves que observamos no cotidiano e não nos conformamos com problemas simples de urbanização que nunca foram solucionados. Ouvimos o primeiro comentário machista/homofóbico/preconceituoso, estranhamos. Ouvimos o segundo, o terceiro, o décimo, o centésimo. De pessoas queridas.
Percebemos que nossos barezinhos preferidos continuam lá, mas que agora já não têm a menor graça. Encontramos os amigos, que dependendo da amizade, ou parece que vimos ontem, ou parece que vimos há milênios. Estranhamos como pode tudo estar tão diferente e tão igual ao mesmo tempo. Tentamos não iniciar frases com "Lá na França (ou qualquer outro país), era assim ou assado", para não parecermos arrogantes.
Ninguém parece entender como era nossa vida do lado de lá e a maior parte das pessoas não está interessada em saber. Alguns acham que já fomos longe, já tivemos nossa crisinha de rebeldia e que agora era a hora de encarar a realidade, que a vida é assim e ninguém pode fugir disso. Querem que retomemos nossas vidas do ponto que paramos quando fomos embora, sem levar em consideração toda a experiência que tivemos nesse tempo. Quando muito, dizem que o aprendizado de uma língua estrangeira "foi bom para o currículo".
Temos novas preocupações de achar um lugar pra morar, um novo emprego, novos bens e todo o pacote burocrático que acompanha. Se tiver um amor estrangeiro na história, então, prepare-se para o pior. Passamos a ter o sonho constante de poder juntar as melhores coisas de cada lugar num único país, mas sabemos muito bem que assim não teria graça. E vamos organizando nossa nova (ou velha) vida aos poucos, sempre olhando pros lados, tentando adaptar nosso aprendizado de lá com as ferramentas que temos disponíveis aqui.
Com o tempo, alguns de nós se readaptam completamente e sentem-se de volta em casa. A experiência fora valeu a pena, mas acabou. Outros descobrem com tristeza que seu lugar não é mais aqui, que seu modo de vida não combina mais com o estilo que tinha antes. A esses, eu espero que tenham coragem suficiente de partir novamente, mesmo que todos ao redor achem que devam ficar. Todo mundo têm o direito de achar seu lugar no mundo. Ou de passar o resto da vida procurando, o que não é nada mal.



26 comentários:
Tenho pensado muito em vocês e seu retorno, imagino que seja uma experiência bem radical, com altos e baixos repentinos, mesmo. Adorei o texto <3
Ai, caceta, escrevi um monte, postei e não foi. Você modera os comentários? Testando, testando.
Eita, Maira, não apareceu nada por aqui não... :/
Então, tinha pensado um monte de coisas pra escrever, escrevi e apaguei porque tinha começado a ficar meio cafona. Só queria te dizer que te entendo bem e solidarizo. Mesmo que essas primeiras impressões não tenham sido as melhores, tenho certeza que você vai achar o seu lugar no mundo; aí, aqui na França de novo ou em qualquer outro canto. Ou como você disse, a boa é continuar procurando (eu acho uma opção deveras interessante). Você é uma das poucas pessoas que eu conheço corajosas o suficiente pra abraçar essa busca.
(Porra, escrevi pela terceira vez e continua cafona. Mas vem do coração, viu?)
(Alguém me para, por favor)
Descreveu muito bem o que muita gente sente, estranho como as pessoas podem ter tido mil experiências diferentes, boas ou ruins, mas esses sentimentos são universais entre "os que retornam". Me readaptei, mas tenho um coração dividido. As vezes acho que o meu lugar é la, mas quando estou la, acho que meu lugar é aqui. Uma das coisas que fizemos para conviver com isso, foi trazer o que de bom tinha la pra ca e viver um pouco como aqui, um pouco como la. Varios habitos e maneiras de viver entraram nesse pacote, somando experiências. Tipo, se aqui quase todo mundo faz de um jeito e la de outro, mas o jeito de la é possivel aqui e condiz mais com o meu estilo de vida, por que não adotar aqui? Um dia se come feijoada, no outro cassoulet :)
Uma vez migrante, turista para sempre.
:)
E' como a Helena falou, acho que uma vez expatriado, para sempre com o coração dividido. E otima estrategia de tentar reunir o melhor dos 2 mundos. Para muitas coisas, é possivel sim.
Amanda, que bom saber que nada é para sempre. Se não estiver bom ai', vcs continuam a buscar o canto de vocês. Por que não?
Boa sorte para vocês dois, seja la' onde for!
Beijo grande,
Dé
fiquei com aperto no coracao, tentei me colocar no seu lugar! bj grande
Amanda, teu post calou fundo por aqui... A cada visita ao Brasil, fica mais claro o quanto mudei. O quanto sinto que nao me adaptaria caso precisasse voltar. Espero que vcs encontrem logo um lugar em que se sintam em casa!
Tenho a impressao de que pra mim vai ser dificil me sentir 100% satisfeita onde quer que eu esteja. Apesar da saudade do Brasil estar maior agora, a cada vez que penso que logo estaremos indo embora, me da um aperto enorme no coraçao. Queria poder fazer como o Chico Buarque, 6 meses em Paris, 6 meses no Rio. E quando chergarmos ai, vamos passar horas juntos falando sobre como era "la na França"! Beijo pra vcs!
Pura verdade!
A ansiedade de voltar é repleta de expectativas ressaltadas pela saudade. E a saudade é um filtro cor de rosa (ela apaga as lembranças ruins, as coisas negativas).
Acostume-se, você será para sempre uma pessoa do mundo, sem aquele patriotismo bobo e cego que não enxerga as mazelas do seu país. E isso é tão positivo.
Quem dera todas as pessoas tivessem este olhar... O mundo ou, pelo menos o nosso país, seria muito mais justo.
Abraços
O que voce escreveu é pura verdade... é o preço que tem que pagar por ter aberto sua visao do mundo conhecendo outros lugares... é uma tal riqueza morar ailleurs. eu voltei pra casa, fiquei um tempo querendo partir de novo e agora perdi a coragem, ou a vontade
Amanda, adorei o texto. leio seu blog a cerca de uma ano, quando me preparava para passar 5 meses em Aveyron e buscava blogs de brasileiros na França. Todos os outros blogs eu deixei de ler, mas o seu eu não pude deixar, pois sua sensibilidade e facilidade de expressão me impressionaram. Essa é a primeira vez que eu comento (eu acho), não que não tivesse vontade de comentar/elogiar antes, pois adoro a maioria dos seus textos, mas dessa vez é diferente, é como se fosse eu que tivesse escrito, é exatamente o que eu sinto, mas não saberia exprimir em palavras. Enfim, eu fiquei só 5 meses, mas a sensação é igual. Enfim, este é um sentimento que existe em mim há 4 meses e que qualquer tentativa de exteriorizá-lo gerava uma reação de repressão do meu interlocutor (familia, namorado, amigos). Uma pena que eu não tenha um blog para dizer àqueles que se interessam saber.
Parabéns pelo belíssimo texto e boa sorte nessa sua nova etapa!
QUE MEDO. E que texto lindo. Beijo, amiga querida. Nos vemos aí.
ai ai ai, que ela tava com dificuldade em fazer um dos melhores posts desse blog. que lindo! sinto exatamente o mesmo quando vou no brasil. por isso, nao penso nunca em voltar. ou em ficar...
ai, que vontade de te escrever!
ferias, veinimim
Olha... já falei em outro lugar, vou repetir aqui: encare como uma fase. Posso estar muito enganada, obviamente, mas me atrevo a pitacar que vocês vão partir depois. E vão levar o melhor do que esse período trouxer, vão acumular aprendizado para... seguir com a busca. Que, né, é a sua cara. Beijos procês dois, seuslindo.
Rita
Amanda,
Faz muito tempo que nao comento por aqui, embora leia sempre.
Amei o seu post, pois me vi ali, como personagem também... voltei ao Brasil ha pouco menos de 1 ano, e posso te dizer que sinto ( depois de todo este tempo) que meu lugar nao é mais aqui. Parece que tudo mudou, as pessoas mudaram, ou melhor eu mudei demais.
Ainda estamos decidindo, mas talvez partiremos de novo! se quiser conversar sobre isso me adiciona no skype, fique a vontade: paula_letras
Bjaoo et courage!
Ana
Lendo os comentários aqui, sobre ficar, partir, fiquei pensando na minha situação: eu moraria em qualquer lugar do mundo, tenho vontade de ir pro Canadá, pra Europa, pra Ásia, ficar no Brasil, e mudar de cidade...acho que não vai existir nunca um lugar ideal, mas lugares onde nos sentimos bem. Já o maridón não quer saber muito de aventura, a aventura dele é o Brasil! :) Agora, com a crise na Europa, ele não gostaria de voltar para lá, pois acha que com o aumento do desemprego, o clima estaria pesado, as pessoas desanimadas. Claro que não é só isso, mas ele se adaptou tão bem aqui, que não consegue pensar em mudar. Todo mundo fala que ele é o brasileiro e eu sou a francesa do casal, hehehe. Então, quando se é dois, acho que a escolha de ficar/partir tem que ser compartilhada...enfim, isso tudo, Amanda, você vai sentir vivendo aqui de novo, tem que deixar um pouco as coisas engrenarem aqui e depois você vai sentir a que lugar pertence, ou se não pertence a lugar algum :)
Amanda, que texto lindo! Você escreve muito bem, adoro seus textos.
Sua descrição sobre a volta ao Brasil como "turista" foi perfeita. Eu sempre reclamo que cada vez menos amigos vêm me ver e que eles não se esforçam o suficiente ...
Com o tempo você vai perceber onde é seu lugar. O começo é dificil, você se sente um peixe fora d'agua, ninguém te endende e não dão a minima para o que você viveu (exatamente como você descreveu no texto).
Depois desse periodo, ça passe ou ça casse.
Tenho amigos que voltaram para o Brasil e não trocam o pais por nada nesse mundo. Eu não aguentei, larguei tudo no Brasil e voltei para a França. Hoje estou feliz da vida aqui e sei que por enquanto aqui é meu lugar.
Beijos e bon courage!
Boa sorte Amanda!
Uma conhecida desistiu de viver fora dizendo: "Aqui é bom, mas é ruim. No Brasil é ruim, mas é bom."
Já outro amigo me disse: "o meu primeiro erro foi sair do Brasil. O segundo, voltar."
Cada um com uma cabeça...
Boa sorte! :)
Amanda voçe é magica, como sempre escreve maravilhosamente....
muita sorte pra voçes!
ja senti exatamente o que vç descreveu, cada palavra do seu texto....
eu com meu marido(françes)voltamos
pra Paris depois de um ano em Sao Paulo, nos queriamos muito ficar ai , mas para o trabalho dele aqui sem duvida é melhor.
escreva sempre que puder!
Eu te adimiro muito pela sua coragem e meudels .. você é muito sortuda. Minha maior vontade é de conhecer a Europa mas com bastante tempo, sabe? Como a impossibilidade ta tomando conta da minha vida eu posso conhecer um pouco, pelo menos, da França aqui. Estou de boqueaberta com tudo que você fala e todas essas fotos maravilhosas dos lugares mais incríveis, é de se emocionar com tanta beleza.
Parabéeens e sucesso, agora que você voltou pro Brasil só peço que não pare de escrever no blog que é incrível.
Beeeijos
Feliz 2012!
Ai, Mandita!:(
Que lindo... Lindo mesmo. Fiquei tão, ou mais, reflexiva do que tenho estado. Ainda não encontrei meu lugar no mundo... Acho ao menos.
E o seu? É aqui? Ou ainda tá recente demais pra dizer onde é o seu lugar, amiga?!
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